Existe um jogo no Congresso que está 17 a 17 há cinco anos — e ninguém nunca apitou o fim. A bola é o cultivo de cannabis medicinal no Brasil, e a partida inteira cabe numa gaveta da Mesa Diretora da Câmara.
Em junho de 2021, a comissão especial que analisava o PL 399/2015 aprovou o parecer que viabiliza o plantio medicinal por um placar absurdo: 17 votos a 17, desempatados no voto de qualidade do relator. Pela regra da matéria conclusiva, sem recurso o projeto iria direto ao Senado. Houve recurso — e desde então o processo dorme no status oficial de aguardando deliberação. O placar não muda, o jogo não acaba e, enquanto a gaveta não abre, paciente paga remédio importado.
É com esse empate escancarado que o blog do Ganzá estreia o Cannabis em Pauta, sua página de charge diária, assinada Editorial VHCode.
Quem botou na gaveta pede voto de novo
Os 17 votos contrários de 2021 seguem todos por aí, pedindo mandato. Os mesmos que apresentaram recurso para travar o projeto na comissão — e que em plenário justificaram o não dizendo que a lei "facilitaria o acesso à maconha no país" — são os que hoje batem no peito em nome da liberdade e do agronegócio: libera agrotóxico, proíbe remédio. A conta desse placar não paga o contribuinte: paga o paciente, refém de importação, câmbio e fila.
A extrema direita vota contra — sempre
Não é palpite, é histórico: a extrema direita que disputa o poder em outubro é a mesma que vota contra qualquer avanço da pauta da cannabis. Na comissão de 2021, a frente do não veio do bloco conservador — Otoni de Paula (PSC) na cabeça, perguntando "quem vai fiscalizar?" e anunciando que o projeto "facilitaria o acesso à maconha no país". Quando o STF fixou, em 2024, o porte para uso pessoal (até 40g ou 6 plantas), a reação da mesma turma foi dizer que o Supremo tinha "legalizado as drogas". Cultivo medicinal, pesquisa, paciente: onde tem cannabis e voto registrado, lá tem a extrema direita do lado do não.
Nenhuma gaveta se fecha sozinha. Ela é alimentada por voto — e é a única parte dessa história que aparece na urna. Quem lê o placar e renova o mandato de quem travou o jogo está assinando mais quatro anos de 17 a 17, com o remédio do outro lado da fronteira. Quem quer ver o apito final sabe exatamente o que não pode continuar na Mesa.
Fontes desta edição
Agência Brasil — Comissão da Câmara aprova projeto que autoriza plantio de cannabis (08/06/2021)
Câmara dos Deputados — ficha de tramitação do PL 399/2015
RPC TV / Gazeta do Paraná — checagem: senador da extrema direita diz que o STF "legalizou as drogas"
Confira as fontes, tire suas próprias conclusões.
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